Aurora encardida (pt. 1)

Saí da boate antes que eu pudesse dar um tiro contra minha cabeça. O lugar era pequeno e quente, e a rua era extensa e fria. Algumas pessoas fumavam e riam. Estavam todos bêbados. Enfiei as mãos nos bolsos do casaco e segui meu rumo.
Não me lembrava do nome daquela rua escura. Os poucos postes acesos faziam círculos brancos no chão. Nesses círculos as putas faziam ponto. Um carro de vidros fumê parou por alguns minutos e depois zarpou. Estava chegando perto de um dos feixes de luz quando uma voz rouca me pediu um cigarro.
- Só tenho Derby.
- Cavalo dado não se olha os dentes, queridinho.
Era um travesti muito preto com um cabelo espalhafatoso, com umas mechas alaranjadas. Estendi o cigarro a ele e esperei que desse o primeiro trago. Olhei pro relógio, não era nem quatro da manhã. O metrô estava ainda fechado. Ônibus, poucos. Pra puxar assunto, comentei:
- Difícil a noite, né não?
Eu me referia ao carro que tinha parado e depois se foi. A bicha se ligou e fechou a cara. Entortou os lábios carnudos quando tragou de novo, e respondeu:
- Tão pensando que achei meu cu no lixo, vê se pode! Faço por cinqüenta o serviço completo e ainda reclamam!
Ficou um silêncio entre nós. Eu ficava olhando pra fumaça do cigarro se perder no ar. Vez ou outra o travesti me olhava de soslaio. Perguntou meu nome.
- Hoje eu não tenho nome.
Ele riu, parecia uma hiena. Depois de tomar fôlego remexeu a bolsa. De dentro de uma carteira com folhas avulsas, retirou um baseado amassado.
- Você fuma?
- Me diz primeiro seu nome.
- Ao contrário de você, eu tenho nome, e me chamo Glória – o travesti parou por alguns instantes, ajeitou o baseado como pôde, e continuou: - Por causa da Glória Maria, sabe? Me achavam muito parecida com ela. E então, você fuma?
- Fumo.
Acendeu, e logo aquele cheiro subiu. Glória deu três ou quatro longos tragos e depois me passou o bagulho. Tinha um gosto bom, nem cheiro de amônia tinha. Os olhos do travesti se esbugalharam de tanto prender a fumaça. Tossiu como se fosse vomitar a alma.
- Caralho, mas que caralho! – gritava Glória e depois voltava a tossir.
Prendi a fumaça, mas logo a soltei quando percebi que minha garganta coçava. Tossi, mas pouco, em vista de Glória. Normal. Olhei pra ela e vi seus olhos lacrimejando.
- Vamos descer a Aurora, quem sabe a gente não acha um bar e toma uma cerveja pra molhar a boca, hein?
Achei boa a ideia de Glória. Antes de sair, ela trocou meias palavras com uma mulher loura, mulher de verdade e também da vida, e depois descemos pra Aurora. Continuamos a fumar o baseado, mas tivemos que apagá-lo no meio do caminho quando uma viatura passou devagar.
- Tão fazendo pose, esses viados.
Eu realmente gostava dos comentários de Glória. A polícia sumiu da mesma forma que apareceu, e então voltamos a fumar. Paramos em frente a um bar sujo, onde dois travestis conversavam, cheiradíssimos. Fungavam como se atacados por uma rinite medonha. Não notaram nossa presença, nem o cheiro do baseado.
- Eu até poderia pedir pro Maneco por uma mesa aqui fora pra gente, mas é que lá dentro é melhor. Tem música, tem gente, tem homens. Você gosta de homens, pessoa sem nome?
- Gosto. Muito.
- Quem sabe não chupamos alguém? Um bem bonitinho e rico. Corre, bicha. Vem.

2 comentários:

Júlia Brum disse...

Sigo lendo teus textos sempre que posta, tem os temas mais diferentes mas sempre trazem ânimo e humor pro meu dia. E tu continua escrevendo muito bem. beijo

A Noiva Cadáver disse...

Está cada vez mais delicioso ler suas frases meu querido.