Mundus Senectus

Eu trouxe os meus cadernos, livros e estojo para a sala, onde vovó estava sentada no sofá, com seus pequeninos olhos azuis fixados na tevê. Puxei a mesa para perto de mim, e iniciei minhas lições de História.
- O mundo está perdido! – dizia vovó com seu sotaque alemão, erguendo os braços como se quisesse dar um abraço em Deus – Está perdido, está perdido!
Olhei para a televisão, onde um repórter de cabelos lambidos apresentava os terrores que haviam ocorrido naquela semana em São Paulo. Segundo ele, duas crianças tinham sido atropeladas, uma quadrilha tinha sido presa e uma fábrica pegou fogo. E minha avó, tristonha, sussurrava para si mesmo que o fim do mundo estava próximo.
- Selvagens! – dizia ela, cutucando meu braço, para que eu prestasse atenção às notícias, que agora mostravam dezenas de trio-elétricos coloridos invadindo a Avenida Paulista, em comemoração à tradicionalíssima Parada Gay – Imundos! Na minha época, meu filho, não era assim. As pessoas se respeitavam, sabia? Era tudo muito civilizado na Alemanha.
- Vovó, em que ano a senhora nasceu?
- Em mil... mil novecentos e trinta e nove – respondeu ela, quase que com orgulho.
- Mas, vovó, nesta época, milhões de judeus morriam massacrados pelas mãos de Hitler, na Alemanha.
- As pessoas se respeitavam!
- Mas, vovó, imagine quantos seres humanos foram mortos, torturados e humilhados! E a senhora diz que o mundo hoje está pior?
- Já para a cama, moleque! Você não entende nada do mundo. Está de castigo!
- Mas vovó...
- De castigo!
Discutir com vovó é sempre algo muito arriscado.

7 comentários:

Alê disse...

Arriscadíssimo eu diria.

E como estás?

E a saudade que eu li no twitter, amenizou-se?

Obrigada por me visitar lá no bloguinho.

Beijos

Alê

- Ya ; disse...

HAHA, se pá as avós são todas iguais , minha vó não viveu na Alemnha , mas sempre fala que era melhor antes, sendo que ,detalhe: ela era presa dentro de casa, e mal podia respirar.
realmente ,era melhor ¬¬ (não)

Ricardo Valente disse...

Muito bom! Não adianta teimar com os mais velhos velhos. Tem uns que merecem ser jogados no lixo.
Abração apertado!
E.T.: não é o caso dessa vovó de olhos azuis pequeninhos. Beijo prela!

Cartografia n'alma disse...

rsrs
interesante a visão da avó. Ela só externou um sentimento comum a muitos. "na guerra todos os pecados são perdoados..." mas no nosso dia-a-dia... as coisas são bem diferentes...
Perfeito!
bjks!!!

Francesco Zappa disse...

até hoje minha vó pensa que gosto de missas e carrego um fardo do cristianismo na alma. Mal sabe ela que medito e pegaria Siddartha Goutama.
Não culpo a senhora de olhos azuis.

Paulo Alonso disse...

aceitar o mundo dos avos ou criar o nosso próprio? eis a questão? o novo ou a conservação?

sempre melhor!
está numa fase mais light?
rs..
abraço

kiki disse...

O fim do mundo está próximo. Concordo com a avó, sempre que se assiste ao Datena...