Os cabelos de Eva

dedico este texto à Alessandra Caparroz.

Eva se olhou no espelho por alguns instantes. Tocou seu próprio corpo, sentindo como se mãos estranhas a tocassem. Deslizou uma escova sobre os cabelos louros, sentindo um imenso vazio. Na verdade, pensou estar penteando os cabelos de outra mulher, e não os dela. Olhou para o relógio de pulso, estava em cima da hora, precisava trabalhar.
Chegando ao local do trabalho, as pessoas a olhavam com um largo sorriso no rosto. Entre sussurros e burburinhos, ouvia elogios escondidos, até que uma de suas companheiras de trabalho dissera que a cor do seu novo cabelo dera-lhe certa vivacidade que não possuía com a cor dos cabelos antigos. Eva sorriu, constrangida, agradecendo o elogio, e entrou em sua sala. Não estava feliz.
O chefe entrou em sua sala, segurando pilhas e pilhas de papéis para serem assinados. O velho a olhou por muito tempo, também elogiando a nova cor do cabelo, dizendo que estava muitíssimo bonita. “Você parece uma nova mulher”, dizia seguidamente, como se não acreditasse na mudança de sua funcionária.
Eva voltou para casa, à noite, deu comida ao seu cão e tomou um banho, para relaxar do cansativo dia de trabalho. O espelho era como uma tortura. Eva tinha a forte sensação de estar olhando para outra mulher, alguém desconhecida. Era uma mulher bonita, sim. Mas não gostava dela.
No dia seguinte, os funcionários da empresa olhavam Eva indiferente, até com certa pena. Sua colega de trabalho aconselhou-a a mudar de cabelo, pois não estava bonita. O chefe, que antes pensava em aumentar o salário de Eva, pensou duas vezes e voltou atrás. Trocava pouquíssimas palavras com ela. Eva olhava-se no espelho com alegria, sentindo um imenso prazer ao tocar os cabelos novamente castanhos. Podia sentir seu próprio cabelo. Podia sentir seu próprio corpo. Podia sentir-se.
Estava plenamente feliz.

9 comentários:

Alê disse...

Depois que eu parar de chorar porque muito emocionada estou, juro que te ligo e agradeço.

Tenho certeza que você leu a minha alma.

Beijos

Alê

Cisticerco disse...

Oi Leandro.
Obrigado pelo comentário.
A propósito estou comprando o livro Assassinos através do Afobório. Parabéns pelo lançamento e sucessos literários.

Abraços

kiki disse...

Eu acho que você começou o blog muito bem! :D

Eduardo Martins disse...

Ainda bem que ela conseguiu se livrar dessa patologia da modernidade e foi ser feliz.
abraço

Cartografia n'alma disse...

Senti até uma pitadinha de Nelson Rodrigues. A angústia da personagem ficou perfeitamente descrita e quase palpável. Uau! MARAVILHOSO!!! As pessoas, a mídia, enfim... Mil coisas tentam nos fazer ser o que não somos todos os dias. Mas como é bom ser feliz sendo nós mesmos. Loiros(as), negros(as), altos, baixos, gordos(as) [essa sou eu. rsrs] e magérrimos... A moda mesmo é ser FELIZ!!! adorei!!! Vc já leu o texto FEMINAE em meu blog? Se não, dá uma olhadinha (não me lembro o mês que postei). Ah!!! roubei algumas idéias suas... rsrs (como: "uma tal de" ou "baú dao blog"... tudo bem???) Bjus!!!

Sheyla Amaral disse...

Olá, pelo visto andamos pelos mesmos caminhos desvirtuados da escrita, hu? Obrigada pela visitinha, virei mais vezes aqui, agora que sei o caminho. Abraço!

Ricardo Valente disse...

Bons esses questionamentos. Eva é egocêntrica. Será que está PLENAMENTE feliz, mesmo?
Abração, loiro Evo!

Paulo Alonso disse...

como é bom sermos nós mesmos! originais. Melhor ainda se o mundo nos aceitasse assim!

grande abraço!

Sunflower disse...

meu cabeleilero sonha com o dia que eu fique loira, o que eu tendia a aceitar a sugestão, até que um dia fui lá e ele blasfemou:

- vai fazer o quê hoje, Jana querida?

- Navalhar as postas e fazer uma escova.

- Escova e chapinhas?

- Querido, Brigitte Bardo não usa chapinha.