“Não sou e não curto afeminados”: os aplicativos de “pegação” e a normatização das relações gays



O surgimento do rádio, da televisão e, mais contemporaneamente, da Internet, mudou com profundidade o campo das relações sociais. Isso porque o desenvolvimento tecnológico está intrinsecamente ligado à necessidade do ser humano em se relacionar com o outro.

O fim do século XIX e o início do XX foram épocas de forte “modernização” da comunicação ­- coloco o termo entre aspas, pois, além de ser bastante relativo, o conceito de modernidade parte de uma perspectiva eurocêntrica. As ilustrações deram lugar à fotografia na imprensa a partir de 1880. Na década de 1990, as cartas foram gradativamente sendo postas de lado com a facilidade dos e­-mails (hoje, a troca de correspondências nada mais é do que romantismo). As tecnologias mudam - e nós também.

A popularização da Internet e dos celulares possibilitou a rapidez no fluxo de informações. Atualmente, é praticamente impossível pensar uma sociedade “moderna” sem ambas as ferramentas. E como todo desenvolvimento tecnológico, tais ferramentas também mudaram nossas vidas, mas não apenas no campo prático das interações sociais, mas também no da subjetividade. Imagine, então, a junção de ambas as tecnologias em uma única mídia: os smartphones.

A subjetividade abarca, também, nossas relações afetivas e sexuais. Não precisamos mais sair de casa para poder conhecer e/ou flertar alguém; salas de bate-­papo e, mais atualmente, aplicativos de relacionamento, se tornaram espaços onde tudo isso pode acontecer. Inclusive, tais aplicativos funcionam a partir de geolocalização, o que facilita a prática da “caça”. E há quem substitua, sem remorsos, relações sexuais reais por sites de pornografia, onde a abundância de pintos, peitos e bundas cumpre (será?) o papel da satisfação carnal.

O italiano Giuseppe Mininni, em sua obra “Psicologia cultural da mídia” (Edições SESC SP, 2008), afirma que “é a mídia que fornece os modelos mentais para organizar a própria identidade e para projetá­-la nas relações com os outros”, mais do que a escola, a família ou o grupo de pares (p. 164).

Para Mininni, a Internet possibilita a formulação de hipóteses sobre a “possibilidade de sermos aceitos por nossa aparência, de controlarmos a credibilidade da própria face e de modelá­-la continuamente para adaptá-­la às circunstâncias mutáveis da interação virtual” (p. 206). Transfiro essa premissa para o campo das mídias digitais, mais especificamente dos aplicativos de relacionamento, onde a aparência não é apenas hipervalorizada, mas ponto importante das interações sociais. Mas, quais aplicativos são esses? E quais interações sociais são estabelecidas?

Corpos (in)desejados

Me parece que os aplicativos de relacionamento,­ ou de “pegação”, como prefiro chamar, cumprem funções afetivo­-sexuais distintas. Por exemplo, aplicativos como Grindr, Scruff e Hornet são espaços onde a procura por sexo casual é muito maior do que em aplicativos como Tinder, Happn e Once, onde é frequente a procura por relacionamentos ditos “sérios” ou mais normatizados. No entanto, não me atentarei para os três últimos aplicativos neste artigo.

No Grindr, Scruff e Hornet, os quais deliberadamente nomearei de aplicativos hiperssexualizados, as fotos “nudes” ganham importância exacerbada para alguns indivíduos. Porém, nem todos os corpos possuem o mesmo valor. E quando falo em “corpo”, penso não somente nessa estrutura biológica composta de carne, ossos, órgãos, etc., mas “corpo” enquanto presença política que ocupa espaços públicos e privados em uma sociedade.

Os padrões estéticos, baseados em valores sociais, são reforçados e hipervalorizados nos
aplicativos de “pegação” (Foto: Reprodução/Hornet)
  

“Não sou e não curto afeminados”; “Só pra macho”; “Gosto de pessoas com mente de homem”; “Educação e hombridade”; “Sou homem, não sou nem gosto de garotas”; “Curto magros. Não aos afeminados, velhos e casais”; “Procuro machos passivos discretos, preferência por idade dos 25 a 38. Tesão por brancos”; “Só para branquinhos”: esses fragmentos foram retirados, na íntegra, de perfis que encontrei em alguns desses aplicativos hiperssexualizados. São pequenos exemplos que mostram que nem todos os corpos são desejados. Corpos afeminados, negros, gordos e velhos não são bem vistos, muito menos bem-­vindos.

É claro que escolhi um recorte de abordagem. Não são todos os usuários que procuram corpos brancos, jovens e viris. Há exceções. No entanto, há uma predominância na busca por esse corpo padronizado, principalmente no que se refere ao gay discreto. Mas será que tudo é uma questão de gosto?

Na obra “Preconceito contra Homossexualidades: a hierarquia da invisibilidade” (Ed. Cortez, 2012), Marco Aurélio Máximo Prado e Frederico Viana Machado reforçam a ideia de que nossos hábitos sexuais são construídos socialmente, pois eles “dependem exclusivamente da construção social das relações entre/pelos seres humanos, relações estas que por sua vez não existem em contextos abstratos, mas estão sempre amalgamadas pela concretude de contextos culturais, geopolíticos, padrões morais e posições sociais” (p. 16).

O professor do Departamento de Sociologia da Universidade Federal de São Carlos (UFScar) Richard Miskolci produz/produziu importantes pesquisas no campo do gênero e das sexualidades. Em seu livro “O desejo da nação: masculinidade e branquitude no Brasil de fins do XIX” (Ed. Annablume, 2012), ele investiga, a partir de uma ótica histórica e sociocultural, como o ideal branco, masculino e heterossexual foi engendrado no país. Abaixo, reproduzo na íntegra um trecho que elucida essa ideia:

“O que denomino de desejo da nação é o conjunto de discursos e práticas histórica e contextualmente constituídos entre fins do século XIX e início do XX por nossas elites políticas e econômicas como uma verdadeira hegemonia biopolítica assentada, externamente, no incentivo à vinda de imigrantes europeus para o Brasil e, internamente, em uma demanda por medidas moralizantes e disciplinadoras voltadas para um progressivo embranquecimento da população. O desejo da nação era, portanto, um projeto político autoritário conduzido por homens de elite visando criar uma população futura, branca e “superior” à da época, por meio de um ideal que hoje caracterizaríamos como reprodutivo, branco e heterossexual”. (p. 50).

Já no artigo “‘Discreto e fora do meio’ – Notas sobre a visibilidade sexual contemporânea”, Miskolci se propôs a fazer o mesmo que eu neste artigo, mas de forma mais técnica e acadêmica. Ele diz que, no regime da discrição e do sigilo, não há a proibição nas relações homossexuais, desde que elas não ameacem a hegemonia heterossexual. Isso porque muitos gays desejam ser reconhecidos a partir de valores baseados no “regime de representação heterossexual e seu culto à generificação binária e intransitiva”.

O sociólogo peruano Giancarlo Cornejo, em seu artigo “A guerra declarada contra o menino afeminado” publicado no livro “Teoria Queer: um aprendizado pelas diferenças” (Autêntica Editora, 2015), traz um emocionante relato pessoal de suas vivências infantis no ambiente escolar, dizendo, a partir do pensamento da teórica norte-­americana Eve Sedgwick, que o menino afeminado é “um segredo nas vozes e pensamentos gays”. Me questiono: até quando nós, meninos afeminados, continuaremos a ser segredos?

Recorro a todas essas referências teóricas para embasar a ideia de que o “desejo da nação” não surgiu espontaneamente. O padrão homem-­heterossexual-­viril-­branco-­burguês foi construído há séculos e, até hoje, é reproduzido em diversos setores da nossa vida, principalmente no que se refere às relações afetivo­-sexuais. Mas tal padrão não é inócuo. Ele provoca a marginalização e estigmatização dos corpos que escapam dessas regras, ou seja: mulheres, LGBTs, afeminados, negros e pobres.

Se nossos desejos são construídos socialmente, podem, portanto, ser desconstruídos,­ o que não é algo tão fácil. Permear nosso imaginário com a ideia de que nossos gostos são tão naturais como o ar que respiramos é de uma profunda ignorância. Nenhuma escolha é inocente e é preciso ter plena consciência disso para mudarmos essa realidade produtora de invisibilidades e inúmeras violências.

A culpa não é dos aplicativos, mas das normas sociais que são reproduzidas e fomentadas fortemente nesses espaços virtuais. Aplicativos são apenas ferramentas, suportes de interação social. Com um aplicativo podemos conhecer pessoas novas, trocar experiências, adquirir conhecimentos. Com eles, também podemos reproduzir padrões violentos, excluir e marginalizar corpos e identidades, e perpetuar a hegemonia heterossexual que, vejam bem, pode ser violenta até mesmo com indivíduos heterossexuais.

E você, leitor ou leitora: vai dar match ​nessa ideia ou vai continuar fingindo que tudo é só uma “questão de gosto”?


5 comentários:

Anônimo disse...

Fico cada vez mais intrigado com essa questão, a " erotização gay", esses aplicativos que cada vez mais fazem parte dá realidade homossexual,eu nunca fui adepto desse tipo de mídia social, acho que sou um gay estranho, sei lá, talvez diferente, louco, é mais certo que sou além do meu tempo. Gostei das citações e exemplificações. Vida longa e sucesso beijos
Fabinho

Samuel Neto disse...

De fato, é um desejo construído sócio-culturalmente, e podemos ainda inserir outros aspectos como a hipervalorização do falo tanto no tamanho "quanto maior/grosso melhor", quanto, principalmente, na existência dele - se considerarmos o recorte da transexualidade.
Se trata de um desejo que invisibiliza e marginaliza, reproduzindo estruturas tão bem conhecidas, por quem é minoria, no dia-a-dia.
Parabéns pelo texto, Le.

Samuel Neto.

Célio Ferreira disse...

Acredito que os efeitos dessa realidade vêm de muita carga imposta pela sociedade,que influencia, aprisiona, limita e transforma as pessoas, fazendo com que elas deixem de ser o que realmente são. Desconstruir é essencial, porém não é tarefa fácil, nem impossível.

Célio Ferreira disse...

Concordo plenamente!

Célio Ferreira disse...

Parabéns, Léo. Perfeito!