Oito

Quando nasceu, era Rafael Carvalho de Mello. Aos seis anos era Rafa, aos quinze era Bolinha e aos vinte e nove era Doutor Rafael. Nascido nas quebradas da Zona Leste de São Paulo, estudou sua vida inteira em escola pública. Era um rapaz estudioso, mas que não deixava os amigos de lado. Rafael, como todas as pessoas, possuía um melhor amigo, Danilo, que era conhecido nos lugares onde freqüentava por Ratinho, devido às grandes orelhas e os miúdos dentes de camundongo. Feio, mas boa gente.
Aos dezenove anos Rafael se contorcia em nervosismo por causa do vestibular. Depois dos estudos diários, jogava sinuca com Danilo, onde sempre acabava perdendo para o amigo. Fumavam um baseado na pracinha, e logo depois ambos voltavam para suas respectivas casas. E todos os dias eram assim. E cada dia mais a amizade de ambos crescia.
Rafael havia passado em uma ótima universidade, formou-se em Direito, onde, durante o curso, conhecera Marília. Casaram-se, moraram juntos, e juntos tudo faziam, até queimar alguns baseados no final do dia, antes de dormir.
Danilo chorou, pela primeira vez na vida, quando recebeu a notícia de que seu melhor amigo iria embora para longe, muito longe, para fora do Brasil. Marília, descendente de espanhóis, havia recebido uma carta dos familiares na Espanha, com a notícia de um ótimo emprego na área de advocacia para ela e o marido, em Madri. Rafael despediu-se de Leda, sua mãe, deu um beijo no rosto do melhor amigo, e pegou um avião destino à Europa.
Como todo mundo que sai de casa, a saudade bateu. Doutor Rafael e sua esposa, após três anos vivendo na Espanha, partiram para São Paulo no período de férias. A saudade latejava tanto que tornava-se quase que insuportável.
As ruas, as casas, as pessoas, nada havia mudado. Dona Leda estava com alguns fios brancos a mais, e com o dinheiro da aposentadoria havia comprado uma televisão, na qual assistia a suas novelas diariamente. Vivia só, viúva, e não quisera voltar a se casar. Na gaiola Paco, um papagaio que era mudo, mas muito simpático.
Após almoçar com sua mãe, Rafael partira destino à casa de Ratinho. Estava vazia. Bateu palma mais algumas vezes, e da penumbra surgira Seu Otávio, pai de Danilo. Com um cigarro de palha na boca, abriu o portão com felicidade e abraçou o garoto que sempre jogava bola no quintal de sua casa.
Rafael, como uma facada no peito, recebera a notícia de que Danilo não mais existia. Morto com oito tiros pela polícia militar, por fumar um baseado depois do cansativo dia de trabalho na gráfica. Rafael não havia acreditado no que havia ouvido. Um baseado, oito tiros.
Passou em um boteco para beber água. Sentado sobre a cadeira, Rafael assistia ao telejornal, que anunciava mais um político que fora acusado de desvio de dinheiro público. Rafael parou, pensou, olhou para a cara do político estampada na TV, e teve náuseas. Ileso, sem tiro nenhum, o político provavelmente iria para uma cela de luxo aproveitando o melhor da vida. Rafael não entendeu o porquê das pessoas ricas, ao cometerem um crime, serem chamadas de criminosas, corruptas, e os pobres, na mesma situação, serem taxados de bandidos, marginais. Mas, qual a diferença disso tudo?
Rafael partiu com Marília de volta para Madri, sentindo uma enorme vontade de vomitar. E para sempre foi assim.

4 comentários:

José Sérgio Bechler disse...

Belo texto!
Tudo se resume em nomenclatura. Ao menos o personagem teve náuseas, não sei se foi a "náusea sartreana" rsrsrs, mas acho que o fato dele ter embarcado de volta pra Madri, dá uma dica de que no fundo ele sabia muito bem porque as coisas eram assim, não?

Abraço!

Amanda Pinheiro disse...

Pobre Rafael, pobre Danilo, pobres nós todos.

Belo texto.

um beijo :*

roberyk disse...

Ótimo texto. Uma exposição de vidas contraditórias num país não menos contraditório. Existe um bom pensamento sobre os "criminosos que vão, quando vão, para celas de luxo". A legislação aqui é feita para proteger os criminosos que a escrevem, de seus próprios crimes.

be. disse...

gosto desse.