A concha

Não havia nada para ser dito.
Ainda de preto, Paulo sentia o peso daquelas vestes sobre seu corpo. Passou a mãos sobre a testa de sua mãe, e foi-se. Ela dormia eternamente.
Chegou à praia ao entardecer. Sentou-se sobre algumas pedras, fitando com esmero as nuvens alaranjadas. Arrancou do pescoço a gravata, estava sufocado. A falta de ar ainda permanecia.
Apanhou uma concha escondida entre as rochas e lançou-a sobre o mar. Sumira, consumida pelas águas, a concha. Em suas mãos, um vazio. Por alguns instantes um arrependimento havia se instalado em si. Não poderia ter lançado aquela pequena concha ao mar. Nem ao menos deveria ter a pego. Deveria ter a deixado onde estava, pensava.
Paulo viu as nuvens mudarem de cor e sentiu uma minúscula felicidade brotar em seu peito, uma sensação de conforto. Tirou dos pés os sapatos e as meias, ergueu as calças, arrancou o paletó e arregaçou as mangas da camisa. A água estava fria, mas não se importava. Seus pés tocavam a areia macia, enquanto algumas algas faziam cócegas em seus tornozelos. Pensou ter molhado o rosto, mas eram lágrimas. Eram silenciosas como aquele início de noite, mudas como as nuvens que iam sumindo no céu.
Imaginou se sua mãe fosse uma concha. O arrependimento cresceu, nem ao menos dera valor naquele pequenino ser, não havia notado sua cor, sua forma: seus pés roçaram em algo sólido. Agachou-se, apanhando um punhado de areia. Na palma da mão viu a concha que havia lançado às águas, enquanto a areia molhada ia escorregando entre seus dedos. Sim, a felicidade havia se fixado em Paulo. Abriu a concha com cuidado, descobrindo, ali dentro, uma pérola a brilhar.
A lua no céu havia aparecido. Paulo, então, se deu conta de que, mesmo as pessoas indo embora de nossas vidas, elas retornam, mesmo que seja em lembranças.
Sua mãe estava na palma de sua mão, mais presente do que nunca.


P.S.: estou postando este texto novamente, pois algumas pessoas não tiveram a oportunidade de lê-lo no outro blogue. Pra quem leu e comentou, (re)leia e (re)comente! :*

7 comentários:

Ricardo Valente disse...

Maravilhoso

Thiago Panza Guerson disse...

Muito bom o texto, valeu ler, pois hoje perdi uma pessoa especial.
Sei que ela sempre estará presente nas lembranças.

Abraços e bom final de semana.

Maria disse...

Puxa, que coisa linda. É pesaroso, mas é tão lindo. As lembranças não nos permitem nenhuma separação... ainda bem...

Beijo meu.

Alê disse...

Don´t you forget about me

http://www.youtube.com/watch?v=ZhaHLoK3CF4

Tradução aqui:
http://vagalume.uol.com.br/simple-minds/dont-you-forget-about-me.html

Seu conto fez lembrar-me dessa música.

Beijos

Alê

Cisticerco disse...

Texto muito legal.

Fábio disse...

Bom texto, muito sensivel.

Josué de Oliveira disse...

Comovente. Gosto de textos assim, leves, e ao mesmo tempo, carregados de significado. Parabéns, Lê.