Uma crônica do que fui e do que sou


Fui uma criança que nunca gostou de brincar de carrinho. E não foi por falta deles. Como todo menino, tinha lá meus caminhõezinhos, minhas motocicletas e meus carros de corrida. Todos muito coloridos e atrativos. Mas nenhum deles me atraiam tanto quanto os bonecos – e as bonecas, também.

Minha brincadeira predileta era construir e mobiliar lares. O boneco – que poderia ser um Power Ranger, um Max Steel ou qualquer outro personagem masculino – era o pai, e a mãe, é claro, era a boneca. O boneco e a boneca tinham uma vida como a de qualquer outro casal, e faziam o que fazem todos os casais em sua sagrada intimidade.

Eu tinha medo de manejar bonecas, principalmente diante de meus familiares. Mas eu gostava do perigo. Gostava de pentear o cabelo louro da Barbie de alguma prima ou vizinha e ajeitar seus vestidos abarrotados. Gostava, também, de imaginar guerras intergalácticas com meus monstros de borracha, batalhas violentas e cheias de barulho.

Cena do filme "Ma vie en rose" (1997), dirigido por Alain Berliner.

Nunca gostei de futebol. Juro que tentei. Tentei driblar meus colegas no campinho de terra do Centro de Convivência lá da Vila Nova Galvão, onde morei. Tentei fazer gols, vestir meiões e chuteiras. Juro, até mesmo, que tentei ser apaixonado pelo São Paulo Futebol Clube – time que herdei de família, mais especificamente de meu pai. Mas não consegui. No máximo, arrancava risadas dos meninos (e meninas), chutava torto para fora do gol e em dia de domingo não sabia o significado da palavra “escanteio”. Hoje, desisti de tentar gostar – não gosto mesmo, e pronto.

Eu gostava de brincar de ser menina.

Um dia minha mãe saiu, meu pai no trabalho e meus irmãos na escola (eu acho). O vazio de toda uma casa só para mim. Não perdi tempo e calcei as sandálias de salto de minha mãe e vesti uma de suas saias. Me pus em frente ao espelho e pintei meus lábios com seu batom grená. Desfilei, desengonçado, de um lado para o outro durante alguns minutos, esvoaçando a saia como Marilyn Monroe provavelmente faria em algum de seus filmes.

Mas eu nunca quis ser uma menina, de verdade.

Era difícil me equilibrar nos saltos, a saia me incomodava no meio das pernas e o batom, além da péssima cor, tinha um gosto estranho. Assim como futebol, aquilo não era para mim. Não levava jeito nem pra uma coisa, nem pra outra. Se os meninos jogavam bola e as meninas se pintavam de batom, e eu não gostava de nenhum dos dois, então, o que eu era? Menino ou menina?

Eu era menino porque tinha uma “coisa” que as meninas não tinham no meio das pernas (e que aos 13 anos aprendi a brincar). Menino porque usava roupas de menino. Menino porque gostava de filmes de terror, de monstros nojentos e assustadores. Menino porque beijei meninas sob pressão dos meus colegas de escola.

Eu era menina, também. Menina, pois gostava de olhar os meninos suados, pra lá e pra cá correndo atrás da bola – e sentia coisas estranhas acontecerem por dentro da minha cueca. Menina, pois gostava de tocar os meninos, abraçar os meninos, beijar o rosto dos meninos, ser a menina que os meninos queriam na solidão de seus quartos. Menina, porque beijei meninas e não gostei. Não gostei mesmo, nem um pouco.

Vagando de um lado para o outro, sem saber muito bem o que eu era, cresci sozinho. Não por falta de amigos ou de familiares, mas por falta de compreensão de todos eles. Essa ausência, no entanto, só me levou a autocompreensão. Percebi que não cabia naqueles rótulos que me ensinaram na escola, dentro de casa e nas aulas de catecismo.

Adulto, percebi que nunca precisei deles – e que, na verdade, ninguém precisa, no fundo. Adulto, descobri o que era homossexualidade e porquê me hostilizavam tanto na sala de aula pela minha voz fina e meus trejeitos de mulher.

Hoje, descobri que posso ser quem eu quiser ser e que isso poderia ter acontecido na infância, se não fossem tantas as amarras que a sociedade me botou. Hoje, descobri que posso amar quem eu quiser, tocar quem eu quiser, e que não preciso me preocupar com definições – apesar de saber muito bem o que quero e do que gosto. Hoje, descobri que poderia ter sido uma criança mais feliz se não se importassem tanto com a Barbie ou o Power Ranger que brinquei.

2 comentários:

A Noiva Cadáver disse...

Hey querido penetrei nas suas frases e estas trouxe-me lembranças e conclusões que sempre insisto em afirmar, não existem rótulos, somos o que somos e assim deve ser, vestidos da maneira que for e externando seus desejos no toque daqueles que se deixam tocar.

Estou com muitas saudades de ti, e não é esporadicamente que relembro nossa convivência.

Yehrow, Adônis, ou quem quiser eu seja. disse...

Os rótulos, eles existem para quem esta a todo tempo classificando os outros. Estes desconhecem algo intrínseco ao ser humano " a personalidade". Importante é ser quem somos, tudo o mais é apenas trauma, rssss!