Falando de Cinema: A Expressão do Terror

Não quero pensar sobre os filmes de terror atuais, mas, também, não posso deixar de refletir sobre o quanto estes tipos de filmes não possuem nem um terço de qualidade dos filmes de antigamente. Assistimos remakes mal-feitos, de uma qualidade lastimável criadora de histórias repetidas e pouco originais. Os zumbis de Romero e de Fulci não são originais por terem sido feitos há muito tempo atrás: possuem uma autenticidade única que somente os artistas mais apurados são capazes de ter. Os vampiros de antigamente eram tão tenebrosos que não me espanto com o fato de muitas crianças não conseguirem dormir à noite depois de assistirem aos filmes. Possuíam (os vampiros) uma sensualidade magnífica, tão equilibrada que a demasia quase nunca era notada. Faziam de suas vítimas verdadeiras obras-de-arte, capazes de ficarem na mente de quem assiste. E também não posso deixar de lamentar dos monstros de hoje que são, na maioria das vezes, computadorizados – estas criações modernas fingem somente àqueles que tiverem paciência suficiente para terminar de assistir à um filme cheio de rodeios e delongas desnecessárias, habitadas em enredos pouco criativos e um tanto massificados. Não é por acaso as pessoas terem reações contrárias aos que o verdadeiro filme de terror propõe: fazer o ser humano enxergar o lado negro de si mesmo para que a realidade seja menos hipócrita e iludida. A platéia ri diante dos novos filmes de terror, que apelam por atuações fracas e roteiros medianos, feitos por cineastas que muito entendem de cinema, mas poucos compreendem o que é a Arte: Arte verdadeira e não uma arte fingida e paliativa para entreter uma massa. Não confio nas obras rotuladas de “arte” por críticos duvidosos, que causam gosto no público por possuírem artifícios suficientes para fisgar qualquer pessoa com romances bobos, obras artificiais que nunca possuirão qualidade por serem, justamente, enlatadas – serão sempre produtos vencidos e de consumo não aconselhável. A verdadeira essência do filme de terror se deu com os artistas expressionistas na Alemanha do século XX, um país devastado pelos horrores da guerra, da fome e da miséria. A exaltação dos instintos obscuros do ser humano deu-se através da distorção das imagens, seja em sua prolífica produção cinematográfica ou na pintura. Respectivamente, Murnau* e Munch** representaram em seus trabalhos artísticos a essência do terror baseada em seus demônios mais íntimos; imagens densas que facilmente poderiam participar de qualquer pesadelo, um reflexo de um momento histórico tão horrendo.
Antes do Expressionismo, os primeiros indícios do surgimento da exploração do lago negro do homem foram dados no Romantismo, avant-garde que possui como característica principal a reflexão sobre as atitudes do homem diante da obscuridade de sua natureza, o pessimismo e um certo gosto pela morte. No Expressionismo, estas idéias se interiorizam e passam a ter um foco muito maior e muito mais trabalhado, desenvolvido. Creio que a idéia de “terror” propriamente dito foi fundamentada muito depois dos expressionistas terem dado o primeiro passo. Não há discussão aparente em relação às produções cinematográficas do terror sem que pensemos o quanto o Expressionismo foi importante para tudo o que se foi assistido e o que veremos no futuro. A trilha sonora, a luz e sombra, a maquiagem (entre outros pontos) foram claramente tomados de seu verdadeiro valor. Não consigo pensar em um bom filme de terror caso não sejam desenvolvidos com qualidade estes aspectos. Em suma, a essência do filme de terror foi desenvolvida pelos expressionistas e transformada, renovada e reciclada pelas produções mais recentes. Mas, hoje, esta essência, de tão mudada, está perdida por completo?
Não vejo qualidade nos filmes de terror atuais. São feitos como se por mãos mecânicas, obras ocas que possuem a mera capacidade de enojar e/ou assustar quem assiste, sendo que esta capacidade nem sempre dá certo. Como anteriormente dito, o espectador ri diante de um filme de terror, tamanha é sua qualidade precária. Não que um filme de terror não tenha de causar estas sensações, mas não somente isso: através delas, o artista deve aprofundar o que realmente quer passar com aquela obra, fazer que o espectador reflita sobre suas próprias atitudes diante de um susto, diante de uma cena marcante. As boas obras do cinema de terror, feitas antigamente, não devem ser copiadas e nem serem alvos de remakes americanizados – devem servir de referência e de inspiração para que, justamente, o cinema não se torne mais uma arte enlatada que, convenhamos, não é arte coisa nenhuma.







*Friedrich Wilhelm Murnau foi um dos maiores diretores alemães do século XX, tendo criado dezenas de filmes clássicos, que hoje se tornaram essenciais para qualquer pessoa interessada em cinema. Nosfetaru, Fausto e Terra em Chamas são apenas algumas de suas obras realizadas na década de 20.

**Edvard Munch foi um pintor norueguês, um dos precursores do Expressionismo Alemão. Seu trabalho mais famoso é o quadro “O Grito” inspirado nas angústias e desespero de si mesmo. Suas obras representam a melancolia, a morte e a solidão.

3 comentários:

Marcos Satoru Kawanami disse...

eu nunca vi sensualidade em filme de vampiro, mesmo os antigos.

Marcos Satoru Kawanami disse...

abri a Veja de 3 de novembro, e vi uma reportagem (obviamente paga) a respeito de nova série no canal FOX. é de zumbi.

talvez morto-vivo seja uma metáfora à pessoas que passam pelo mundo sem viver, só existindo. como a frase do Oscar Wilde: "the rarest thing in the world is living, most people just exist.".


MISANTROPO
(as maritacas)

Que tenho eu a ver com este mundo
de gente?, turbilhão da vã rotina;
defuntos ambulantes, cega sina
movem despertos num sono profundo...

Falem, falem mais, encham o meu saco!,
que eu sozinho depois longe da rua,
do silêncio as delícias tenho a Lua;
e, plenos, muito rimos de vós: cacos!

Muito mais vale ter por companhia
um bobo alegre, um grande imbecil
que um hipócrita grave e varonil.

Digam que sofro de misantropia,
mas à mulher prefiro a MARITACA
(que nem dá o que dá de bom a vaca).

Marcos Satoru Kawanami

obs: não sou gay. é, esse comentário ficou esquisitão com a citação do irlandês.

=D

Marcos Satoru Kawanami disse...

ué, fui eu mesmo que escrevi o soneto acima. tá no meu livro.