Não se vá, meu amor

Para as pessoas em geral, ele não teve motivos realmente importantes para ter feito aquilo; mas, para si próprio, o abandono foi suficiente para pintar de vermelho a cama em que dormia a namorada.
Era uma terça-feira. Tadeu decidiu não tomar banho em seu trabalho naquele dia. Juntou todos os seus pertences na mochila e entrou no carro. No percurso até sua casa, ouviu notícias de políticos suspeitos de fraude, nada muito fora do comum. Ouviu, também, músicas antigas, aquelas que costumava ouvir ao lado do seu pai, mas nem por isso esboçou no rosto cansado um sorriso. Para si, o ato de se lembrar de algo não era motivo para emoções.
Estacionou o carro ao lado de um fusca azul, como sempre fazia. Tadeu não quis ir de escada até o quinto andar. Preferiu ir de elevador, deixando-se levar pelo cansaço que se transformava em sonolência. Conseguiu ver os olhos caídos de Ana pelo espelho, quando ela colocava no corpo um sutiã vermelho, e dentro de uma mala o último par de meias.
Inicialmente, não conseguiu entender aquilo tudo. Na verdade, até mesmo depois de todo o ocorrido não conseguia encontrar respostas. Vê-la calçar as sandálias prediletas, apanhar as chaves em cima da mesa, olhar para trás e simplesmente dizer adeus fizeram Tadeu tocar o braço da mulher e fazê-la parar de andar. Apenas perguntou o porquê daquilo. Ana escondeu os olhos. Tentou se mover, mas Tadeu a apertava ainda com mais força. Ela tentava mover-se para frente, sair do apartamento, mas Tadeu não deixava, não queria.
Arrastou-a para o quarto. As sandálias e a mala ficaram caídas na sala. Ana tentara gritar. Disse que estava amando outro homem. Tadeu pensou em chorar, em implorar para que continuasse ali, ao seu lado, mas já demonstrava fraqueza demais lançando contra o rosto da mulher um golpe que a deixara inconsciente, caída no chão do quarto.
Trancou a porta do cômodo. Caminhou até a cozinha. Não havia outro modo de impedi-la de partir. Notou que Ana cortava cenouras para o jantar, as rodelas alaranjadas do legume espalhadas sobre uma tábua de cortar carne. Enfiou um pedaço de cenoura na boca e voltou para o quarto, mastigando silenciosamente, apenas observando a mulher erguer-se lentamente do chão, sentindo fortes dores de cabeça. Antes que ela pudesse recobrar a consciência, deu o primeiro golpe com a faca que havia pegado no meio das cenouras. O segundo golpe foi mais fácil. O terceiro fez com que ela gritasse ainda mais. O quarto, o quinto, o sexto, o sétimo... Todos eles fizeram com que a cama branca ficasse vermelha, assim como as paredes, o guarda-roupa. O décimo segundo golpe, o último, tirou de Ana o que restava de seu rosto.
Tadeu tomou um rápido banho, arrumou as coisas de Ana e ligou a tevê. Sentia fome quando se deu conta de que não havia absolutamente ninguém que pudesse terminar de fazer a sopa.

Um comentário:

Mila Toshie disse...

Fiquei presa até a última palavra. Maravilhoso, só isso.