Scarpin Vermelho

Chovia. Ela parou em frente ao portão da mansão rodeada por cercas-vivas, jogando a guimba do cigarro em uma poça d’água. Abriu o portão de ferro que estava encostado, subiu as escadas de mármore, batendo diversas vezes uma aldrava de cobre presa à uma porta de mogno. Após alguns instantes de espera, um velho careca, preso num paletó impecavelmente limpo, apareceu, perguntando o que ela queria.
- Quero falar com o Fábio. É urgente, seu moço.
O mordomo desapareceu por alguns minutos. Um homem alto, usando óculos, surgiu à sua frente, com o rosto pálido e banhado em suor. Gaguejando, perguntou o motivo da presença de Clarice em sua residência. Ela não respondera: com agilidade, passou por debaixo dos braços de Fábio, que se virou, vendo-a parada no centro da sala de estar, a olhar para os lustres de cristal presos ao teto.
- Caia fora daqui! Meus pais não podem te ver, você sabe disso!
- Eu não quero nem saber. Quero conhecer sua família toda. Até vim mais arrumadinha pra jantar com vocês.
- Meu Deus, Clarice! Saia já daqui, meus pais não te podem...
- Ah! Boa noite, senhora mãe do Fábio, como vai?
Fábio entrou em pânico. Uma velha senhora, de pele bronzeada e cabelos negros parou no centro da sala, a olhar fixamente para aquele ser de vestido preto e scarpin vermelho, que imprimia no rosto maquiado um largo sorriso. Ela abraçara com força toda pequenez da mãe de Fábio, que continuava atônita, sem saber o que estava acontecendo.
- Quem é você?
- Ela... Ele... não é ninguém, mãe.
- Meu nome é Clarice. Clarice Montes. Mas esse é meu nome de noite. Mas meu nome verdadeiro é Leonardo Martins.
Um homem gordo e de barba branca despontara no alto da escada, a olhar o acontecimento inesperado em sua sala de estar. Desceu rapidamente os degraus, a olhar com ódio o travesti que vinha em sua direção, de braços abertos. Após um abraço forçado, Clarice apresentou-se com voz ansiosa, dando um beijo na bochecha gorda do homem, que se limpou em seguida, enojado.
- Você conhece este travesti, Fábio? Conhece? – perguntava seguidas vezes o pai de Fábio, alterando cada vez mais o tom de voz – Conhece ou não?
- Não, pai...
- Conhece sim, moço. Ele me pediu em namoro. Eu moro em São Paulo. Vim aqui pro Rio só pra conhecer vocês. Que legal, não é?
- Legal um cacete! – vociferou a mãe de Fábio, que segurou com firmeza nos braços de Clarice, e a arrastou até a porta na tentativa de tirá-la do local – Legal um cacete!
Clarice tentou soltar-se das mãos da mulher que, com um único golpe, derrubou-a no chão. Clarice, caída sobre o carpete, limpava o sangue que escorria pelo nariz. Ergueu-se rapidamente, arrumando o vestido de veludo. Arrancou de um dos pés o scarpin vermelho e lançou-o contra a mãe de Fábio, que se esquivou. O sapato fora de encontro a uma coleção de vasos chineses, que caíram no chão em forma de cacos.
Fábio, sem saber o que fazer, aproximou-se do travesti, pedindo educadamente para que saísse de sua casa, pois não queria mais confusões ali. Clarice cuspiu em seu rosto e deu-lhe um bofetão, chamando-o de filho da puta. O pai gritava aos céus, caído sobre um sofá branco, chorando e pedindo a Deus que aquilo não fosse verdade. O seu maior medo era que seu filho fosse...
- Veado! – gritou o travesti, agarrando o rosto de Fábio – O filho de vocês é veado!
O homem avançou contra ela, de punhos cerrados, como um touro indomável. Clarice retirou do outro pé o scarpin e arremessou-o contra o homem que, menos inteligente e sagaz do que a esposa, não se desviara do ataque, caindo pesadamente sobre o chão, a testa a sangrar.
Descalça, Clarice abriu a porta da sala de estar, sentindo o cheiro da chuva adentrar em suas narinas. Retirou da bolsa uma granada, arrancou o pino que acionara a tampa da espoleta, e lançara-a em direção à sala. Ainda pôde ouvir Fábio gritando que a amava.
O travesti, molhado pela chuva, ficou parado no meio da rua, a olhar a mansão que ardia em chamas, engolida por labaredas vermelhas. Limpou algumas lágrimas que escaparam de seus olhos, e depois pegou um táxi. Clarice odiava quando sua maquiagem era borrada. Odiava quando não lhe davam atenção.

6 comentários:

Thiago Panza Guerson disse...

Porra! Desculpe-me o palavrão, mas que travesti sinistro.! hahaha
Abraços!

Ricardo Valente disse...

Dá uma dó quando não se assume o que se faz... pior ainda quanto aos sentimentos. De qualquer maneira, não cabe a ninguém julgar. Bom esse post, para se pensar melhor antes de agir!
Abraço!

Extase disse...

olha clarice eu te compro uma maquiagem a prova dagua

andre disse...

eu te compro uma maquiagem a prova dagua[2]

aaah sinceramente nao consegui sentir odio do travesti......(com o perdao da palavra)o cuzao da historia é o fabio (e a familia homofobica dele,claro)

Abraços!!

Denise disse...

eheheh... conheço esse escarpin

Alê disse...

Eu já lhe perguntei sobre Clarice, mas falta dizer algo: desejo realmente que ela encontre um grande amor.

Clarice fez, o que não temos coragem de fazer.

Beijos

Alê